Por que as apostas online prendem tanto
As apostas pelo celular juntam tudo o que facilita a perda de controle: acesso 24 horas, resultado imediato, apostas ao vivo durante a partida, bônus e propaganda constante. Cada aposta ativa o sistema de recompensa do cérebro, e a incerteza do resultado é justamente o que torna o jogo tão envolvente. Com o tempo, a pessoa precisa apostar mais para sentir o mesmo efeito e passa a jogar para aliviar a ansiedade ou a tristeza.
Um traço muito característico é a tentativa de recuperar o que perdeu. A pessoa aposta de novo para zerar o prejuízo, perde mais, e o ciclo se repete. É nesse ponto que o jogo deixa de ser escolha e vira compulsão.
Sinais de que o jogo saiu do controle
Alguns sinais que costumam aparecer: pensar nas apostas boa parte do dia; apostar valores cada vez maiores; tentar parar ou diminuir e não conseguir; ficar irritado ou inquieto quando não aposta; apostar para fugir de problemas ou de sentimentos ruins; voltar para recuperar perdas; mentir para a família sobre quanto aposta; pedir dinheiro emprestado, usar o limite do cartão ou atrasar contas por causa do jogo; ter prejuízo no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos.
Não é preciso ter todos esses sinais para buscar ajuda. Se dois ou três deles fazem sentido para você ou para alguém próximo, vale uma avaliação.
Como é o tratamento
O tratamento começa com uma avaliação psiquiátrica cuidadosa. Muitas pessoas com transtorno do jogo também têm depressão, ansiedade, TDAH, transtorno bipolar ou uso problemático de álcool, e esses quadros precisam ser tratados junto, porque um alimenta o outro. A avaliação também identifica o risco de suicídio, que é maior em quem acumula dívidas e vergonha.
A psicoterapia, principalmente a terapia cognitivo-comportamental, é parte central do plano: ajuda a identificar gatilhos, corrigir crenças sobre sorte e controle, lidar com a vontade de apostar e reconstruir a rotina. Em alguns casos, o psiquiatra pode indicar medicação para reduzir a compulsão ou tratar os quadros associados. A escolha é individual e nunca deve ser feita por conta própria.
Medidas práticas fazem muita diferença: bloquear sites e aplicativos, entregar temporariamente o controle financeiro a alguém de confiança, cancelar cartões extras e evitar conteúdos ligados a apostas. Grupos de apoio, como os Jogadores Anônimos, e o envolvimento da família ajudam a manter o tratamento.
Como usar o bloqueio oficial das bets
Desde dezembro de 2025, o Ministério da Fazenda oferece a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, em gov.br/autoexclusaoapostas. Com a conta Gov.br nível prata ou ouro, a pessoa pede o bloqueio em todas as casas de apostas autorizadas de uma só vez, por um período de 1 a 12 meses ou por tempo indeterminado. As empresas têm até 72 horas para aplicar o bloqueio, que também impede a abertura de novas contas e a publicidade direcionada.
É uma ferramenta importante, mas não resolve tudo sozinha: sites ilegais não são obrigados a cumprir o bloqueio, e a vontade de apostar continua existindo. Por isso a autoexclusão funciona melhor como parte de um tratamento.
Para a família
A família costuma descobrir o problema pelas dívidas. Raiva e cobrança são reações compreensíveis, mas humilhar ou expor a pessoa aumenta a vergonha e afasta do tratamento. O melhor caminho é conversar com firmeza e acolhimento, proteger as finanças da casa e estimular a busca de ajuda especializada. Os familiares também podem e devem buscar apoio.
Atendo pessoas com transtorno do jogo no consultório em Goiânia e por telemedicina. Se você se reconheceu neste texto, procure ajuda: quanto antes o tratamento começa, menor o prejuízo.