Quais são as disfunções sexuais
Fala-se em disfunção sexual quando uma dificuldade persistente em alguma fase da resposta sexual causa sofrimento. As mais comuns são:
- falta ou queda importante do desejo sexual;
- dificuldade de excitação, que no homem aparece como disfunção erétil;
- dificuldade ou demora para chegar ao orgasmo;
- ejaculação precoce;
- dor na relação.
Uma fase ruim depois de um parto, de um luto ou de semanas de muito trabalho não é disfunção. O que conta é a persistência, em geral por meses, e o sofrimento que isso traz para a pessoa ou para o casal.
Por que depressão e ansiedade mexem com a sexualidade
O desejo depende de energia, de prazer e de disponibilidade para o outro, justamente o que a depressão tira. Uma meta-análise publicada no Journal of Sexual Medicine mostrou que a relação é de mão dupla: a depressão aumenta o risco de disfunção sexual, e quem tem disfunção sexual tem mais que o dobro de chance de desenvolver depressão. Em homens, outra meta-análise encontrou o mesmo padrão entre depressão e disfunção erétil.
A ansiedade age de outro jeito. Na hora da relação, a pessoa sai da experiência e passa a se vigiar, pensando se vai dar certo. Basta uma falha para o medo de falhar de novo se instalar, e esse medo, sozinho, atrapalha a ereção, a lubrificação e o orgasmo. É a ansiedade de desempenho, muito comum em homens jovens com disfunção erétil que não têm nenhuma doença física.
Estresse crônico, burnout, traumas, conflitos no relacionamento, uso de álcool e de outras substâncias e insatisfação com o próprio corpo também entram na conta.
Quando o remédio é parte do problema
Vários antidepressivos, principalmente os da classe dos ISRS e alguns de ação dupla, podem diminuir o desejo, atrasar o orgasmo ou dificultar a ereção. Uma meta-análise mostrou que esse efeito varia bastante de um remédio para outro, e que alguns antidepressivos quase não causam o problema. Antipsicóticos, alguns remédios para pressão e o álcool também podem interferir.
Muita gente percebe o efeito e para o remédio por conta própria, sem contar ao médico. Isso é arriscado, porque a interrupção brusca pode causar sintomas de retirada e a volta da depressão ou da ansiedade. O melhor caminho é falar abertamente na consulta. Dá para ajustar a dose, trocar por um remédio com menos efeito sexual ou associar outro medicamento. Uma revisão Cochrane mostrou, por exemplo, que em homens com disfunção erétil causada por antidepressivo a sildenafila e a tadalafila ajudam.
Como é a avaliação
Na consulta, pergunto sobre sexualidade com a mesma naturalidade com que pergunto sobre sono e apetite. Quero entender quando a dificuldade começou, se aparece sempre ou só em algumas situações, como estão o humor, a ansiedade e o relacionamento, e quais remédios e substâncias a pessoa usa. Um detalhe ajuda muito: quando a ereção acontece normalmente ao acordar ou na masturbação, mas falha na relação, o componente emocional costuma pesar mais.
O corpo também precisa ser olhado. A disfunção erétil pode ser o primeiro sinal de diabetes, colesterol alto ou doença dos vasos, e alterações hormonais, como testosterona baixa ou mudanças na tireoide e na prolactina, podem reduzir o desejo. Nas mulheres, a menopausa e o pós-parto mudam a lubrificação e o desejo. Conforme o caso, peço exames e trabalho junto com urologista, ginecologista ou endocrinologista.
Como é o tratamento
O tratamento depende da causa. Quando a dificuldade vem de uma depressão ou de um transtorno de ansiedade, tratar o quadro de base costuma melhorar a vida sexual, desde que a escolha do remédio leve a sexualidade em conta desde o início. Quando o problema é efeito colateral, ajusto a medicação. Quando há ansiedade de desempenho, a psicoterapia, em especial a terapia sexual e, quando faz sentido, a terapia de casal, tem papel central e pode ser combinada com medicação por um período.
Falar de sexualidade não precisa ser constrangedor. É um assunto de saúde como outro qualquer, e tratar o problema costuma melhorar também a autoestima e o relacionamento. Veja também as páginas sobre depressão e ansiedade e o texto sobre menopausa e saúde mental.
Referências
- Laumann EO, Paik A, Rosen RC. Disfunção sexual nos Estados Unidos: prevalência e fatores associados. JAMA, 1999.
- Atlantis E, Sullivan T. Associação bidirecional entre depressão e disfunção sexual: revisão sistemática e meta-análise. Journal of Sexual Medicine, 2012.
- Liu Q, et al. Disfunção erétil e depressão: revisão sistemática e meta-análise. Journal of Sexual Medicine, 2018.
- Serretti A, Chiesa A. Disfunção sexual associada a antidepressivos: meta-análise. Journal of Clinical Psychopharmacology, 2009.
- Taylor MJ, et al. Estratégias para tratar a disfunção sexual causada por antidepressivos. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2013.