O que é perimenopausa
Menopausa é a data da última menstruação, confirmada depois de 12 meses sem menstruar. Antes dela vem a perimenopausa, a fase de transição, que costuma durar alguns anos. Nesse período os ovários funcionam de forma irregular. O estrogênio sobe e desce sem padrão, os ciclos ficam mais curtos, mais longos ou falham, e aparecem os calorões, o suor noturno e as mudanças no sono.
Para o cérebro, o problema não é só a queda do estrogênio, mas a oscilação. É a mesma lógica da TDPM: algumas mulheres são mais sensíveis às variações hormonais e sentem mais o impacto no humor.
Sintomas emocionais da menopausa
Os mais comuns são irritabilidade, choro fácil, ansiedade, sensação de nervos à flor da pele, perda de interesse e de prazer, cansaço e queda da libido. Muitas mulheres também percebem dificuldade de concentração e esquecimentos, como perder palavras ou o fio do raciocínio. Isso costuma ser chamado de névoa mental. Na maioria das vezes as mudanças de memória são leves e melhoram depois da transição, mas assustam e merecem ser avaliadas.
Uma meta-análise publicada em 2026, com mais de cem estudos, encontrou sintomas depressivos em cerca de 1 em cada 3 mulheres na perimenopausa e na pós-menopausa, além de taxas altas de ansiedade e insônia. Os números variam de estudo para estudo, mas a mensagem é clara: é frequente e tem tratamento.
Menopausa ou depressão?
As duas podem existir juntas, e uma piora a outra. Os calorões acordam a mulher várias vezes à noite, o sono ruim deixa o humor mais frágil e o humor deprimido aumenta o peso dos sintomas físicos. Essa fase da vida também costuma trazer mudanças grandes: filhos saindo de casa, pais adoecendo, pressão no trabalho, mudanças no corpo e na vida a dois.
As diretrizes da Sociedade Norte-Americana de Menopausa, feitas junto com especialistas em depressão, orientam que a avaliação olhe para tudo isso ao mesmo tempo: a fase da transição, os sintomas da menopausa, os sintomas psiquiátricos, o momento de vida e outras doenças que imitam o quadro, como alterações da tireoide e anemia. As mesmas diretrizes mostram que a maioria das mulheres que tem depressão na perimenopausa já teve um episódio antes. Quem já passou por depressão, TDPM ou depressão pós-parto deve ficar mais atenta nessa fase.
Procure o psiquiatra se houver tristeza ou irritação na maior parte dos dias por mais de duas semanas, perda de interesse pelas coisas, ansiedade que atrapalha a rotina, insônia que não melhora, uso de álcool ou de remédios para dormir por conta própria e, principalmente, qualquer pensamento de morte.
Como é o tratamento
Na consulta, avalio humor, ansiedade, sono, memória, uso de álcool e outras substâncias, os remédios em uso e a história psiquiátrica e ginecológica. Peço exames quando é necessário e, sempre que possível, converso com o ginecologista, porque essa fase é mais bem tratada quando as duas especialidades trabalham juntas.
Quando há depressão, os tratamentos que funcionam para a depressão em qualquer idade, antidepressivos e psicoterapia, são a primeira escolha também na perimenopausa. Alguns antidepressivos têm uma vantagem a mais: reduzem os calorões, o que ajuda quem não pode ou não quer usar hormônio. A escolha do remédio considera sono, peso, libido e outros efeitos colaterais.
A terapia hormonal não é um tratamento aprovado para depressão, mas tem efeito sobre o humor em parte das mulheres na perimenopausa, principalmente nas que têm calorões. Um ensaio clínico publicado no JAMA Psychiatry mostrou que estradiol transdérmico com progesterona, usado por um ano, reduziu o aparecimento de sintomas depressivos em mulheres no início da transição. A indicação e a segurança da terapia hormonal são avaliadas pelo ginecologista, caso a caso.
Cuidar do sono é parte central do plano, assim como atividade física, menos álcool e atenção ao momento de vida. Nenhuma mulher precisa atravessar essa fase em silêncio achando que é normal sofrer. Veja também as páginas sobre insônia, depressão e ansiedade.
Referências
- Balasubramanian I, et al. Prevalência e incidência de sintomas depressivos, ansiosos e de insônia na perimenopausa e na pós-menopausa: revisão sistemática e meta-análise. General Hospital Psychiatry, 2026.
- Badawy Y, et al. Risco de depressão nas fases da menopausa: revisão sistemática e meta-análise. Journal of Affective Disorders, 2024.
- Maki PM, et al. Diretrizes para avaliação e tratamento da depressão na perimenopausa. Menopause, 2018.
- Gordon JL, et al. Estradiol transdérmico e progesterona na prevenção de sintomas depressivos na transição menopausal: ensaio clínico randomizado. JAMA Psychiatry, 2018.
- Maki PM, Jaff NG. Névoa mental na menopausa: guia da International Menopause Society sobre cognição. Climacteric, 2022.