Qual a diferença entre TPM e TDPM
A TPM, ou síndrome pré-menstrual, reúne sintomas físicos e emocionais que aparecem nos dias antes da menstruação: inchaço, dor nas mamas, dor de cabeça, vontade de comer doce, cansaço e um pouco mais de sensibilidade. É muito comum e, na maior parte das vezes, não atrapalha a vida de forma importante.
A TDPM é outra coisa. Os sintomas emocionais ficam tão fortes que prejudicam o trabalho, os estudos e a convivência com o parceiro, os filhos e os amigos. Muitas mulheres dizem que naqueles dias se sentem outra pessoa e depois se arrependem do que disseram ou fizeram. Por isso a TDPM faz parte da classificação de transtornos mentais usada pelos psiquiatras, o DSM-5, como um transtorno depressivo.
Sinais de que pode ser TDPM
Para pensar em TDPM, é preciso ter pelo menos cinco sintomas na semana antes da menstruação, que melhoram poucos dias depois que ela começa e quase somem na semana seguinte. Pelo menos um deles precisa ser do humor:
- mudanças bruscas de humor, choro fácil, sensibilidade maior à rejeição;
- irritabilidade ou raiva intensa, com mais conflitos;
- tristeza profunda, desesperança ou autocrítica pesada;
- ansiedade, tensão, sensação de estar no limite.
Também podem aparecer perda de interesse pelas atividades, dificuldade de concentração, cansaço, mudança no apetite, sono demais ou de menos, sensação de estar sobrecarregada ou fora de controle e sintomas físicos como inchaço e dor nas mamas.
O que mais chama atenção é o padrão. Os sintomas vão e voltam junto com o ciclo, mês após mês, e trazem prejuízo de verdade.
Por que acontece
Mulheres com TDPM não têm hormônios alterados, e os exames costumam vir normais. O que muda é a forma como o cérebro reage às variações normais de estrogênio e progesterona ao longo do ciclo.
Um estudo clássico publicado no New England Journal of Medicine mostrou isso de forma elegante. Quando os hormônios do ciclo eram suspensos com medicação, os sintomas desapareciam. Quando estrogênio ou progesterona eram devolvidos, os sintomas voltavam, mas só nas mulheres com o transtorno. Nas outras, as mesmas doses não mexiam no humor. A diferença está na sensibilidade, e ela envolve circuitos do humor em que a serotonina tem papel importante. Isso ajuda a entender por que alguns antidepressivos funcionam tão bem nesse quadro.
Quando a piora antes da menstruação é outro problema
Nem toda piora antes da menstruação é TDPM. Depressão, ansiedade e transtorno bipolar costumam se intensificar nessa fase, e a mulher pode notar só a piora, sem perceber que os sintomas estão ali o mês inteiro. Uma revisão publicada no British Journal of Psychiatry encontrou queixas pré-menstruais importantes em mais de 4 em cada 10 mulheres com transtornos do humor.
Essa diferença muda o tratamento. Se é TDPM, o foco é a fase pré-menstrual. Se é uma depressão que piora antes da menstruação, é a depressão que precisa ser tratada, e o ciclo entra como um ajuste. Separar uma coisa da outra é trabalho do psiquiatra.
Um ponto merece atenção especial. Estudos mostram que mulheres com TDPM têm risco maior de pensamentos de morte. Se isso acontece com você, mesmo que só naqueles dias, fale com um médico. É um sinal de que o quadro precisa ser tratado com seriedade.
Como confirmar o diagnóstico
A memória do mês passado engana. Por isso o diagnóstico de TDPM é confirmado com um registro diário dos sintomas durante pelo menos dois ciclos. Pode ser um caderno, uma planilha ou um aplicativo de ciclo menstrual. O importante é anotar todos os dias, com uma nota de 0 a 10, como estão o humor, a irritação, a ansiedade, o sono e o corpo, e marcar os dias de menstruação. Quando o diagnóstico é feito só pela lembrança, o número de casos mais que dobra em relação ao diagnóstico confirmado pelo diário, segundo uma meta-análise de 2024.
Na consulta, além do diário, avalio a história do humor ao longo da vida, gestações e pós-parto, uso de anticoncepcional, sono, álcool e outras substâncias, e condições clínicas como alterações da tireoide, que podem imitar ou piorar os sintomas. Quando faz sentido, converso com o ginecologista da paciente.
Como é o tratamento
Os antidepressivos da classe dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina, os ISRS, como fluoxetina, sertralina e escitalopram, são o tratamento com mais estudos para a TDPM. Uma revisão Cochrane atualizada em 2024, com 34 ensaios clínicos, concluiu que eles provavelmente reduzem os sintomas pré-menstruais. Diferente do que acontece na depressão, o efeito costuma aparecer em poucos dias, e por isso algumas mulheres podem usar o remédio só na segunda metade do ciclo. Na média, o uso contínuo teve efeito maior. A escolha do esquema é individual e leva em conta os efeitos colaterais, que existem e são acompanhados nas consultas.
Para quem também quer um anticoncepcional, as pílulas combinadas com drospirenona têm estudos na TDPM, com efeito pequeno a moderado. Algumas mulheres melhoram com anticoncepcional, outras pioram, e essa decisão é feita junto com o ginecologista. Nos casos graves que não respondem, existem tratamentos que suspendem o ciclo hormonal, sempre em conjunto com a ginecologia.
A psicoterapia, principalmente a terapia cognitivo-comportamental, ajuda a reconhecer os gatilhos e a atravessar os dias difíceis com mais recursos, e entra no plano junto com a medicação. Sono regular, atividade física e menos álcool e cafeína na fase pré-menstrual também ajudam.
Se você se reconheceu aqui, comece o diário hoje e leve para a consulta. Ele encurta muito o caminho até o diagnóstico. Veja também as páginas sobre depressão e ansiedade e o texto sobre menopausa e saúde mental.
Referências
- Reilly TJ, et al. Prevalência do transtorno disfórico pré-menstrual: revisão sistemática e meta-análise. Journal of Affective Disorders, 2024.
- Jespersen C, et al. Inibidores seletivos da recaptação de serotonina para síndrome pré-menstrual e TDPM. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2024.
- Schmidt PJ, et al. Efeitos comportamentais diferentes dos hormônios ovarianos em mulheres com e sem síndrome pré-menstrual. New England Journal of Medicine, 1998.
- Bengi D, et al. Comorbidade entre TDPM ou TPM e transtornos do humor: revisão sistemática e meta-análise. British Journal of Psychiatry, 2026.
- Yan H, et al. Suicidalidade em pacientes com transtorno disfórico pré-menstrual: revisão sistemática e meta-análise. Journal of Affective Disorders, 2021.
- Ma S, Song SJ. Anticoncepcionais orais com drospirenona para síndrome pré-menstrual. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2023.
- Yonkers KA, O'Brien PM, Eriksson E. Síndrome pré-menstrual. The Lancet, 2008.