O que muda na puberdade
A puberdade começa, em geral, entre 8 e 13 anos nas meninas e entre 9 e 14 anos nos meninos. Nas meninas, um marco é a menarca, a primeira menstruação, que costuma vir cerca de dois anos depois do início do crescimento das mamas. Nos meninos, as mudanças na voz, nos pelos e no corpo vêm com um estirão de crescimento.
Ao mesmo tempo, o cérebro passa por uma grande reorganização. As áreas ligadas à emoção e à busca de novidade amadurecem antes das que controlam o impulso e o planejamento, que só terminam de amadurecer no começo da vida adulta. Isso ajuda a entender por que as emoções ficam mais intensas e as decisões, às vezes, mais impulsivas.
O sono também muda. O relógio biológico do adolescente atrasa, e o sono passa a chegar mais tarde, mas a escola continua começando cedo. O resultado é uma privação de sono crônica, que piora o humor, a atenção e a irritabilidade.
Menarca e humor nas meninas
Um estudo que acompanhou milhares de meninas no Reino Unido, dos 13 aos 26 anos, mostrou que os sintomas depressivos aumentam depois da menarca, qualquer que seja a idade em que ela acontece. As meninas que menstruam antes das colegas têm mais sintomas aos 14 anos, e as que menstruam mais tarde acabam chegando ao mesmo nível alguns anos depois.
Entrar na puberdade antes do grupo pesa por motivos biológicos e sociais. O corpo muda antes de a menina estar emocionalmente preparada, ela pode receber uma atenção que ainda não sabe administrar e se sente diferente das amigas. Uma meta-análise de 2017 mostrou que a puberdade precoce em relação aos colegas se associa, de forma pequena mas consistente, a mais problemas emocionais e de comportamento, tanto em meninas quanto em meninos.
Para algumas adolescentes, o ciclo menstrual também traz oscilações de humor fortes na semana antes da menstruação. Quando isso é intenso e se repete todo mês, vale pensar em TDPM, que pode começar já nessa fase.
Meninos também sentem
Nos meninos, o sofrimento costuma aparecer menos como tristeza e mais como irritação, explosões, isolamento, queda no rendimento escolar ou comportamento de risco, como uso de álcool, apostas online e brigas. Muitos têm dificuldade de falar sobre o que sentem e acabam vistos só como rebeldes. A comparação com o corpo dos colegas, a pressão do grupo e o excesso de redes sociais também mexem com a autoestima.
Quando a fase vira sinal de alerta
Cerca de um terço das pessoas com algum transtorno mental tem os primeiros sintomas antes dos 14 anos, e quase metade antes dos 18, segundo uma meta-análise com mais de 700 mil pessoas. Por isso a adolescência é uma janela importante para reconhecer e tratar cedo. Procure avaliação se perceber:
- tristeza, irritação ou desânimo na maior parte dos dias por mais de duas semanas;
- isolamento dos amigos e perda de interesse pelo que antes gostava;
- queda importante nas notas ou recusa de ir à escola;
- mudanças grandes no sono ou no apetite, dietas muito restritivas, compulsão ou vômitos;
- preocupação excessiva com o corpo e o peso;
- crises de ansiedade, medos que limitam a rotina ou rituais repetitivos;
- uso de álcool, cigarro eletrônico, outras drogas ou apostas;
- automutilação ou falas sobre morte e sobre não querer viver.
O último item é urgente. Se o adolescente fala em morrer ou se machuca, procure ajuda no mesmo dia. O CVV atende pelo telefone 188, 24 horas.
Como os pais podem ajudar
Perguntar ajuda mais do que adivinhar. Um "como você está de verdade?" em um momento tranquilo, sem pressa e sem sermão, abre mais portas que um interrogatório depois de uma briga. Ouvir sem diminuir o problema e sem dramatizar também conta. Rotina de sono, refeições em família e limite no uso de telas à noite são cuidados simples que fazem diferença.
Na avaliação psiquiátrica do adolescente, converso com ele sozinho e com a família, porque cada um enxerga uma parte da história. O sigilo do adolescente é respeitado, com exceção das situações de risco. Quando há indicação, o tratamento combina psicoterapia, orientação à família, contato com a escola e, se necessário, medicação, com acompanhamento próximo. Veja também a página sobre psiquiatra para adolescentes.
Referências
- Solmi M, et al. Idade de início dos transtornos mentais no mundo: meta-análise de 192 estudos epidemiológicos. Molecular Psychiatry, 2022.
- Prince C, et al. Idade da menarca e sintomas depressivos da adolescência à vida adulta. Epidemiology and Psychiatric Sciences, 2023.
- Ullsperger JM, Nikolas MA. Momento da puberdade e psicopatologia na adolescência: revisão meta-analítica. Psychological Bulletin, 2017.