Por que a depressão do homem passa despercebida
Quando se fala em depressão, as pessoas pensam em tristeza, choro e desânimo. Muitos homens não se reconhecem nessa descrição. Uma meta-análise publicada na Harvard Review of Psychiatry mostrou que homens com depressão relatam mais uso de álcool e drogas, mais comportamento de risco e menos controle dos impulsos que as mulheres, enquanto elas relatam mais humor triste e mudanças no apetite e no sono.
Na prática, a depressão masculina pode aparecer assim:
- pavio curto e explosões de raiva;
- trabalhar demais para não pensar;
- beber mais para relaxar ou para conseguir dormir;
- dirigir em alta velocidade, apostar ou gastar por impulso;
- afastamento da família e dos amigos;
- dores no corpo, problemas de estômago, cansaço e queda do desejo sexual;
- sensação de vazio ou de fracasso.
Uma revisão sistemática sobre masculinidade e depressão mostrou que a ideia de que homem precisa ser forte e resolver tudo sozinho afeta três coisas: a forma como os sintomas aparecem, a disposição para procurar ajuda e o jeito de lidar com o problema, muitas vezes com álcool, isolamento ou trabalho em excesso.
A crise dos 30 e a cobrança por resultado
Entre os 30 e os 40 anos, muitos homens fazem um balanço da vida: carreira, dinheiro, casamento, filhos, casa própria. As redes sociais pioram a comparação, porque mostram a vitrine da vida dos outros. Quem sente que ficou para trás pode passar a se cobrar o tempo todo, dormir mal, ficar irritado e perder o prazer no que antes gostava.
Questionar a própria vida é normal e às vezes saudável. O problema começa quando esse balanço vira um sofrimento que não passa, com ansiedade, insônia, sensação de fracasso e decisões impulsivas, como largar tudo de uma vez, apostar para recuperar o tempo perdido ou buscar alívio no álcool.
Dinheiro, dívidas e saúde mental
Problemas financeiros estão entre as maiores fontes de estresse da vida adulta. Uma meta-análise publicada na Clinical Psychology Review encontrou que pessoas endividadas têm risco cerca de três vezes maior de transtornos mentais, principalmente depressão. A relação vai nos dois sentidos. A dívida piora o humor, e a depressão, a ansiedade, o TDAH e o transtorno bipolar podem levar a gastos impulsivos, desorganização financeira e apostas.
Por isso pergunto sobre dinheiro na consulta, sem rodeios. Gastos fora de controle podem ser sintoma de um quadro que tem tratamento, como um episódio de mania, o TDAH ou o vício em apostas. E quando a dívida é a origem do sofrimento, tratar o humor e a ansiedade ajuda a pessoa a voltar a tomar decisões com mais clareza.
Quando procurar ajuda
Vale procurar o psiquiatra se a irritação, o cansaço ou o desânimo duram mais de duas semanas, se o álcool virou a forma de relaxar ou de dormir, se o trabalho, o casamento ou as finanças começaram a desandar, se há apostas ou gastos fora do controle, ou se a insônia não melhora.
Pensamentos de morte são sempre motivo para buscar ajuda no mesmo dia. Os dados do estudo Global Burden of Disease, publicados no BMJ, mostram que a taxa de suicídio é maior entre homens do que entre mulheres em quase todos os países e faixas de idade. O CVV atende pelo telefone 188, 24 horas.
Como é o tratamento
Muitos homens preferem uma conversa direta e objetiva, e a consulta pode ser assim. Avalio humor, ansiedade, sono, álcool e outras substâncias, apostas, saúde física e o que está pesando na vida da pessoa. A partir daí, monto um plano com metas práticas: voltar a dormir, reduzir a bebida, recuperar a energia para o trabalho e para a família.
O tratamento pode incluir psicoterapia, medicação quando indicada e mudanças na rotina, como atividade física regular. Procurar ajuda cedo encurta o caminho e evita que o problema cresça. Veja também as páginas sobre depressão, burnout e dependência química e o texto sobre disfunção sexual e saúde mental.
Referências
- Cavanagh A, et al. Diferenças na expressão dos sintomas de depressão entre homens e mulheres: revisão sistemática e meta-análise. Harvard Review of Psychiatry, 2017.
- Seidler ZE, et al. O papel da masculinidade na busca de ajuda para depressão: revisão sistemática. Clinical Psychology Review, 2016.
- Richardson T, Elliott P, Roberts R. Dívidas pessoais e saúde mental e física: revisão sistemática e meta-análise. Clinical Psychology Review, 2013.
- Naghavi M; GBD Self-Harm Collaborators. Mortalidade por suicídio no mundo de 1990 a 2016: estudo Global Burden of Disease. BMJ, 2019.